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Currículo, conhecimento, identidade e poder

17/08/2026



Atualmente, estou atuando como assessora, pela Oficina Municipal, no processo de elaboração participativa do Currículo Municipal de Xambioá (TO), no âmbito de uma parceria técnica com o Instituto Votorantim. Esse trabalho me levou a retomar, atualizar e revisitar algumas leituras fundamentais sobre currículo.

Entre elas, está Documentos de Identidade: uma introdução às teorias do currículo, de Tomaz Tadeu da Silva, uma obra que continua oferecendo chaves importantes para pensar não apenas o que é currículo, mas, sobretudo, o que está em jogo quando uma rede de ensino decide o que ensinar. Neste texto, compartilho algumas reflexões a partir dessa leitura.


Definir currículo é perguntar o que ele procura responder

Ao discutir o que é currículo, Tomaz Tadeu da Silva propõe deslocar a atenção da busca por uma definição única e universal para outra questão: quais perguntas as diferentes teorias do currículo procuram responder?

Em outras palavras, talvez seja mais produtivo investigar quais questões são comuns às diferentes perspectivas curriculares e quais perguntas específicas distinguem cada uma delas. Apesar de suas diferenças, as teorias do currículo acabam convergindo para uma questão fundamental: O que os estudantes devem saber? Ou, formulada de outra maneira: Quais conhecimentos e saberes são considerados importantes, válidos ou essenciais a ponto de merecerem fazer parte do currículo?

Essa pergunta já nos revela algo importante: toda construção curricular envolve necessariamente critérios de seleção e priorização.

Construir um currículo significa escolher determinados conhecimentos entre muitos outros possíveis. Significa decidir o que merece ser ensinado, o que será priorizado, o que ficará em segundo plano e, em alguns casos, o que sequer aparecerá no documento curricular.

Por isso, a pergunta sobre o que ensinar nunca é neutra. O que ensinar e quem queremos formar são perguntas inseparáveis

A questão sobre os conhecimentos que integrarão um currículo não pode ser separada de outra pergunta igualmente importante: Que sujeitos queremos formar?

Ao selecionar conhecimentos, o currículo participa também da definição do tipo de estudante, cidadão e ser humano que uma sociedade considera desejável formar.

Essa é uma dimensão essencial da reflexão proposta por Tomaz Tadeu da Silva. O currículo não trata apenas de conhecimento. Ele envolve também identidade e subjetividade.

A própria origem da palavra ajuda a pensar essa questão. Curriculum, em latim, remete à ideia de percurso, curso, caminho ou pista de corrida. Podemos, então, considerar o currículo como uma trajetória que percorremos e ao longo da qual também vamos nos constituindo.

O currículo não apenas organiza aquilo que aprendemos. Ele participa da formação daquilo que somos e daquilo que nos tornamos.


Currículo como identidade

Nas discussões cotidianas sobre currículo, frequentemente concentramos nossa atenção nos conteúdos, competências, habilidades e conhecimentos que devem ser ensinados. Mas o conhecimento que integra o currículo está profundamente relacionado à constituição das identidades.

Aquilo que aprendemos, os conhecimentos aos quais temos acesso, as experiências educativas que vivenciamos e também aquilo que é silenciado ou excluído do currículo participam da maneira como construímos nossa compreensão de nós mesmos, dos outros e do mundo.

Por isso, além de uma questão de conhecimento, o currículo é também uma questão de identidade. Essa talvez seja uma das contribuições mais relevantes das teorias contemporâneas do currículo: compreender que selecionar e priorizar conhecimentos significa também participar da produção de determinados modos de ser, pensar, interpretar e se relacionar com o mundo.

Em síntese, pode-se dizer que toda escolha curricular articula conhecimentos, formação humana e projeto de sociedade:


Fonte: Elaborado a partir Tomaz Tadeu da Silva em Documentos de Identidade.

Elaborar um currículo é uma operação de poder

Se construir um currículo implica selecionar, priorizar e privilegiar determinados conhecimentos, então elaborar um currículo é também realizar uma operação de poder. Isso não significa reduzir o currículo a uma disputa de interesses. Significa reconhecer que nenhuma seleção curricular é inteiramente neutra ou natural.

Toda proposta curricular nos permite perguntar: Por que este conhecimento e não outro?Quais critérios orientaram essa escolha? Quais valores e concepções de sociedade sustentam essa seleção? Por que determinadas identidades, experiências e formas de compreender o mundo recebem maior espaço do que outras?

Essas perguntas são fundamentais porque tornam visíveis escolhas que, muitas vezes, podem parecer meramente técnicas.


O que aprendemos com as teorias tradicionais, críticas e pós-críticas

Tomaz Tadeu da Silva organiza boa parte de sua discussão em torno de três grandes conjuntos de teorias curriculares: tradicionais, críticas e pós-críticas.

As teorias tradicionais concentraram sua atenção principalmente nos processos de ensino, aprendizagem, avaliação, metodologia, didática, organização e planejamento. Sua preocupação esteve fortemente relacionada à organização do processo educacional e às maneiras consideradas mais adequadas para ensinar determinados conhecimentos.

As teorias críticas, por sua vez, introduziram de maneira decisiva a discussão sobre as relações de poder presentes no currículo. A partir delas, o currículo deixa de ser compreendido apenas como uma seleção técnica ou neutra de conhecimentos e passa a ser analisado como uma construção social e histórica, atravessada por interesses, disputas e relações de poder. Nesse campo, tornam-se centrais conceitos como poder, ideologia, emancipação e conscientização.

Já as teorias pós-críticas ampliam essa discussão e colocam no centro questões relacionadas à identidade, alteridade, diferença, diversidade, multiculturalismo, subjetividade, texto e discurso. O poder continua sendo uma dimensão fundamental, mas passa a ser compreendido de maneira mais disseminada. Ele não está localizado apenas no Estado, no governo ou nas instituições que oficialmente elaboram os documentos curriculares. As relações de poder atravessam toda a rede social na qual o currículo é produzido, interpretado, vivido e reconstruído.


Fonte: Elaborado a partir Tomaz Tadeu da Silva em Documentos de Identidade.


O que isso significa em um processo de construção curricular participativa?

Essa discussão ganha especial relevância quando pensamos a elaboração de currículos em redes municipais de ensino.

O currículo não se constitui apenas no momento em que uma secretaria de educação ou uma equipe técnica redige um documento. Ele é produzido também nas relações entre aqueles que participam de sua elaboração, nos processos de consulta e escuta, nas escolhas feitas pelas equipes pedagógicas, nas experiências acumuladas pelas escolas e nas formas pelas quais professores, estudantes, famílias e comunidades atribuem significado ao conhecimento escolar.

Por isso, um processo de construção participativa de currículo não é apenas uma estratégia metodológica para elaborar um documento. Ele diz respeito também à pergunta: Quem participa da definição do que deve ser ensinado?

Se a construção curricular envolve poder de seleção e legitimação de conhecimentos, ampliar a participação significa também ampliar os sujeitos que podem tomar parte dessas escolhas. É nesse ponto que a reflexão teórica se aproxima diretamente dos processos concretos de elaboração curricular.


Currículo é uma construção social

Compreender o currículo como construção social significa reconhecer que aquilo que uma sociedade considera conhecimento válido não é algo natural, definitivo ou imutável. É resultado de processos históricos de seleção, negociação, disputa e legitimação. As teorias críticas e pós-críticas nos ajudam justamente a interrogar essas escolhas. Nesse caminho, é preciso se perguntar quem participa dessas escolhas e quais experiências e conhecimentos estão sendo reconhecidos ou silenciados. Essa aspecto é fundamental, por diz que sujeitos pretendemos formar por meio desse currículo e qual sociedade pretendemos construir.

Essas reflexões modificam profundamente a maneira como olhamos para um currículo. Ele deixa de ser apenas uma lista de conteúdos, uma matriz de habilidades ou um instrumento técnico de organização do ensino.

Como sintetiza Tomaz Tadeu da Silva:

O currículo tem significados que vão muito além daqueles aos quais as teorias tradicionais nos confinaram. O currículo é lugar, espaço, território. O currículo é relação de poder. O currículo é trajetória, viagem, percurso. O currículo é autobiografia, nossa vida, curriculum vitae. No currículo se forja a nossa identidade. O currículo é texto, discurso, documento. O currículo é documento de identidade. (Silva, 2026, p.150)

Afinal, o que está em jogo quando construímos um currículo?

Ao final dessa leitura, três perguntas me parecem especialmente importantes para qualquer processo de elaboração curricular:



Essas três questões estão profundamente relacionadas entre si.



É justamente por reunir conhecimento, identidade, relações de poder e projeto de sociedade que um currículo nunca é apenas um documento técnico. Ele expressa escolhas sobre a educação que desejamos construir. E, ao mesmo tempo, expressa escolhas sobre os sujeitos e sobre a sociedade que desejamos contribuir para formar.

Talvez seja essa uma das razões pelas quais Tomaz Tadeu da Silva afirma que, depois das teorias críticas e pós-críticas, já não podemos olhar para o currículo com a mesma inocência de antes.

Construir um currículo é sempre escolher caminhos. E escolher caminhos significa também decidir, coletivamente, para onde queremos ir.


Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa
Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa

Sobre a autora

Lilian Rosa, como gosta de ser chamada, já atua há mais de três décadas com políticas públicas, pesquisa, planejamento e formação de gestores nas áreas de educação e cultura. Sua trajetória é movida pelo propósito de contribuir para a transformação da educação e da gestão pública. Acredita no amor como atitude pedagógica, na educação construída de múltiplas formas e na solidariedade, na empatia e na ética como fundamentos de práticas públicas humanas, democráticas e comprometidas com o bem comum.

 
 
 

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