Pertencer a um lugar
- Cocreare Consultoria
- 27 de mar. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de fev.
Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa
2019

Uma parte fundamental da relação entre as pessoas e as cidades são os laços de
pertencimento, entendidos como vínculos afetivos que transformam espaços inicialmente vazios de sentido em lugares carregados de significado. Esses laços são construídos e fortalecidos ao longo do tempo, por meio da observação, das vivências cotidianas e do compartilhamento dos territórios. Trata-se de um processo que ocorre pela apropriação dos espaços por seus moradores.
A apropriação pode se dar por dois caminhos principais: pela ação-transformação ou pela identificação. No primeiro caso, o morador atua intencionalmente sobre o entorno, incorporando às suas práticas cotidianas o desejo de transformar positivamente sua rua, seu bairro e sua cidade. Esse movimento gera vínculos afetivos e desperta o sentimento de pertencimento e de corresponsabilidade em relação ao lugar onde se vive. Já a identificação ocorre, em maior ou menor grau, por meio da interação não apenas com o espaço físico, mas também com a coletividade que constitui a comunidade. Ela se manifesta quando os indivíduos se permitem estar juntos, compartilhar experiências e articular soluções para os problemas do território que habitam.
Essas reflexões foram fortemente inspiradas pela participação de Lilian Rodrigues de Oliveira Rosa, Sandra Rita Molina e Adriana Silva, representando o Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), no projeto Ruas Abertas, realizado em 30 de setembro de 2019. Naquela ocasião, a ocupação das ruas como espaço de convivência, encontro e experimentação revelou, de forma concreta, como a presença das pessoas no espaço urbano, fora da lógica exclusiva da circulação de veículos, pode ativar sentidos de pertencimento, cuidado e corresponsabilidade. A vivência evidenciou que ocupar a cidade é também produzir vínculos, criar memória e transformar o espaço público em lugar.

Lilian Rosa, Sandra Molina e Adriana Silva, representando o IPCCIC no projeto Ruas abertas em 30 de setembro de 2019. Ocupando as ruas.
Para ilustrar esse processo, recorro à história de uma grande amiga, Sandra Rita Molina. Nascida em Ribeirão Preto, ainda muito jovem deixou a cidade para estudar. Viveu por muitos anos em Campinas, onde construiu amizades, participou de movimentos estudantis e se envolveu em diversas práticas sociais que a levaram a desenvolver uma forte identificação com aquele município. Em determinado momento de sua trajetória profissional, retornou à cidade onde nasceu. Em nossos encontros para um café, ouvi dela, por várias vezes, a afirmação: “não tenho relação nenhuma com Ribeirão, não sinto nenhum tipo de ligação com essa cidade, diferentemente de Campinas, onde me sinto em casa”.
Esse sentimento persistiu por alguns anos, até que, de forma gradual, sua relação com Ribeirão Preto começou a se transformar. Sandra passou a integrar um grupo de pesquisa dedicado a estudar a história do município; aceitou o convite para participar do conselho de preservação do patrimônio; envolveu-se em movimentos voltados à melhoria da qualidade de vida da população; passou a atuar em grupos e conselhos que debatiam os problemas da cidade; adotou a bicicleta como meio de deslocamento, observando ruas, praças e edificações a partir de outra perspectiva. Aos poucos, quase sem perceber, foram se criando laços entre ela e a cidade, dando origem a um genuíno sentimento de pertencimento.
Se hoje fosse questionada sobre o que sente em relação a Ribeirão Preto, provavelmente diria: “esse lugar me pertence e eu sou responsável por ele”. Não no sentido de propriedade, mas no de cuidado e compromisso. O que essa afirmação expressa é o surgimento de vínculos com a coletividade que representa o município, a compreensão de que o espaço urbano também é resultado das ações e escolhas de seus habitantes.
No exemplo da minha amiga, encontram-se alguns dos caminhos pelos quais a apropriação dos espaços pode gerar identidade. Caminhos que levam o indivíduo a projetar-se nos lugares, a apegar-se a eles, introjetando-os e transformando-os em uma extensão de si mesmo e de sua própria casa. Apesar de ter nascido em Ribeirão Preto, Sandra se sentia inicialmente distante das práticas e vivências que estruturavam a vida coletiva da cidade. Hoje, por meio da ação e da identificação, sente-se parte de uma comunidade, uma cidadã ativa e responsável, que participa do lugar onde vive. Ela pertence a Ribeirão, e Ribeirão pertence a ela. Ainda que um dia venha a se mudar, esse sentimento produziu qualidade de vida durante o tempo em que ali esteve.
Faço, por fim, um convite a todos: experimentar esse mesmo sentimento de pertencimento, o de reconhecer-se como parte de um lugar e, sobretudo, o de importar-se com ele.
